sábado, 30 de dezembro de 2017

Mário Schenberg e o budismo-marxismo

"Se eu tivesse de escolher um cientista como continuador de minha obra,
seria o brasileiro Schenberg"
- Einstein

Aprendi com Lukács que a causalidade é princípio do pensamento racional. Igualmente, aprendi isso com os pré-socráticos e os budistas. Como afirma Sidarta, o buda: "Quem vê as causas, vê o Dharma". No entanto, existem muitos escritos contra o princípio da causalidade e sua aplicabilidade às dimensões subatômicas. Jung em seu prefácio ao I Ching afirma que a causalidade seria um princípio do pensamento ocidental. Grandes pensadores como Hussel e outros também são contrários à aplicação da causalidade ao mundo quântico, relativístico, subatômico, etc. Esse texto não é uma crítica a essas posições, apesar da minha discordância. Um marxista que admiro muito e de riquíssima contribuição em diversas áreas, o italiano Antonio Gramsci, desconsidera a possibilidade da causalidade nas ciências humanas, pois este princípio estaria em contradição com a liberdade da práxis (prática, karma, causalidade posta). Todos incorrem no mesmo equívoco: confundem causalidade com determinismo.

É moda, devido ao falso debate científico propagado pelos meios de comunicação dominantes, a afirmação de que a causalidade seja um princípio racional apenas para a física clássica, não a moderna. Há estudos que discordam desta posição. Interessante notar que o alemão Heisenberg é sempre citado quando se quer argumentar contra a causalidade na física moderna, todavia, essa sua posição exposta em 1927 contra o principio da causalidade fora abandonada já em 1930 em outros trabalhos. Quando citam a indeterminação de Heisenberg, se esquecem de afirmar essa evolução em seu pensamento: indeterminismo não anula a causalidade; bem como a indeterminação está também presente no mundo da física clássica.

O marxista brasileiro Mário Schenberg (1916-1990), político e crítico de arte, físico de renome mundial, foi grande defensor do princípio da causalidade aplicado à teoria da relatividade e da aproximação entre a lógica dialética de Marx com o pensamento oriental. Abaixo reproduzo trechos de uma entrevista na qual tematiza o budismo, sobretudo o filósofo e lógico budista indiano Nagarjuna (sec. II-III). Com a palavra, o professor Schenberg:




"A essência do marxismo é uma compreensão dialética da História. A compreensão dialética da história não é um pensar cartesiano, é exatamente uma coisa anti-cartesiano. Talvez na dialética hegeliana, se ela for bem aplicada, e depois na dialética marxista, o pensamento ocidental atingiu maior aproximação com o pensamento oriental. Aliás, isso é uma coisa óbvia para quem compara, por exemplo, a dialética marxista com o taoísmo chinês. Os filósofos soviéticos reconhecem isso, considerando Lao-Tsé como um dos fundadores da dialética. Quem sentia muito isso era Brecht. Não sei se você sabe: Brecht tinha um desses rolos com pintura ou desenho, com um retrato de Lao-Tsé, que ele levava pra onde fosse. Assim que chegava num lugar ele o desenrolava e pendurava na parede. Realmente há uma afinidade muito grande entre os dois pensamentos. Mas essa coisa foi muitas vezes perdida, quando o marxismo foi vulgarizado e deturpado. (...) Mecanizado, não é? O que seria preciso, seria exatamente, desenvolver mais a concepção da Dialética, que é uma tentativa de superação da racionalidade cartesiana. Um outro tipo de pensamento que iria além da racionalidade restrita, e que tem muitos contactos com o Taoismo e outras coisas do Oriente. Eu acho que o marxismo pode ser um instrumento extremamente útil, se for utilizado de uma forma criadora, mas não como um conjunto de receitas. Uma receita fixa é o tipo da coisa anti-dialética. Já que a realidade está sempre em modificação é preciso adaptar o pensamento a essa mobilidade do real (...) Na realidade eu não sei se se pode ensinar dialética a alguém. Eu acho que a dialética é um tipo de ação mental, digamos assim, que tem muitas das qualidades de uma arte. Não é um processo metódico que se aplica automaticamente e que dá resultado certos. É um certo estilo de pensamento diferente, muito intuitivo. Por isso muitos trechos de Marx são geralmente mal interpretados; quase todos. Um caso interessante é do texto em que ele fez aquela tirada famosa sobre a religião, em que diz que a religião é o ópio do povo. Essa frase foi destacada do contexto, e se a gente lê o texto completo, vê que o pensameno dele era bem mais complexo. (...) Inclusive a própria idéia de religião deve ser vista dialeticamente, porque a religião também não é uma coisa fixada de uma vez por todas, mas está mudando continuamente de conteúdo. Na realidade houve muitas vezes uma vulgarização do marxismo, e formularam um certo número de regras. Ora, essas regras não adiantam muito. Eu acho, por exemplo, que não adianta grande coisa, para se aplicar o marxismo, conhecer aquelas três leis da Dialética que Engels enunciou. São certamente interessantes, mas não é conhecendo aquelas três regras que se consegue analisar dialeticamente uma situação. É preciso um senso das contradições, sentir quais são essas contradições. E neste ponto você encontra em Mao coisas interessantes, quando ele combina certas coisas da dialética marxista com aspectos do pensameno tradicional chinês obtendo um esquema mais rico. Em vez de se fixar sobre uma única contradição, ele considera a existência necessária de várias contradições simultâneas e a inter-relação entre elas. (...) Provavelmente Marx não conhecia a Filosofia Oriental, mas se ele a conhecesse, acho que que teria gostado muito. Alguns filósofos soviéticos reconheceram a importância da Filosofia Oriental, tanto que alguns dos melhores estudos sobre esse assunto foram feitos na União Soviética. Inclusive há uma obra monumental de um russo (é um nome muito atrapalhado) sobre a Lógica do Budismo. Há uma tradução inglesa desse livro, creio que da Dover. Mas é uma coisa muito interessante, porque essencialmente uma grande parte do Budismo trata de problemas lógicos. (...) Seríssimos, não é? Tanto que agora já se está começando a compreender no Ocidente que o filósofo Nagarjuna foi um dos gênios da Lógica. Nagarjuna compreendia, por exemplo, muitas coisas que Bertrand Russell começou a compreender no Ocidente sobre a natureza da proposição e outras coisas. Então, mesmo no que se refere à compreensão da Lógica e outros problemas há muitas coisas que o Ocidente não compreendeu tão bem como o pensamento oriental antigo. Mas eu acho que a aproximação maior, talvez, do pensamento oriental se encontra exatamente na dialética hegeliana e marxista".

Confira a entrevista completa clicando aqui.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Espiritualidade materialista?

O sábio vietnamita Thich Nhat Hanh explica que a meditação nos leva a compreender que não há uma substância ou uma essência permanente, imutável, que funda a realidade. A ideia de "consciencia cosmica" ou "buda primordial" ou mesmo "designer inteligente" são incompatíveis com o espírito empírico e causal de Buda e também de Marx. A unidade absoluta entre cada um de nós e o restante do universo é demonstrada pelo conceito de fluxo energético e não implica na existência de entidades gerais, mas no reconhecimento de que cada forma de ser é única e irrepetível. Tudo o que existe é o que Buda denominou de coisas compostas; tudo o que existe surge e perece. "Panta rei" (tudo flui), escreveu o sábio grego Heráclito; o cientista francês Lavoisier afirmou que nenhum existente surge do nada e que na natureza nada se perde, mas tudo se transforma permanentemente de uma forma para outra. Por isso, para Thich Nhat Hanh todo ser nada mais é que uma forma de inter-ser; ele explica que os ensinamentos budistas não nos esclarece acerca da substância, mas é justamente o contrário; como já escrevi no blog, a prática budista nos ajuda a reduzir e superar as abstrações que servem como envólucros da realidade e geradores de sofrimento. A substância para o budismo seria a não substâncialidade. A insubstâncialidade de tudo o que é real significa que o eterno é apenas uma ideia sem correspondente na realidade e que tudo acaba. À medida em que compreendemos e vivenciamos a insubstância experienciamos a verdadeira relação entre nome e forma ou consciência e realidade. Descobrimos a potencia e a beleza de nossa condição humana, natural e terrena, frágil e rara, dando-nos paz interior e bondade amorosa, compaixão para com todos os seres e felicidade em viver. O eterno, o sem-fim, o não-composto não existe, tudo depende de causas e condições, a alma e o corpo formam uma só coisa, ao morrermos nossa alma não se desprende do corpo: nosso corpo e nossa alma não são duas coisas diferentes. Deus portanto é uma ideia, é apenas as nossas qualidades positivas projetadas para fora de nós mesmos como uma coisa externa. Não é Deus que determina nossas vidas, mas nós mesmos, nossas escolhas, ou seja, é o nosso karma (ação). Karma é sinônimo daquilo que Lukács, em sua ontologia, chama de causalidade posta; a prática coloca coisas no mundo (na forma de pensamento, palavras e ação) e sofre as consequências do que põe. Escreve Marx: "(...) seria uma contradição fazer, de um lado, que todas as ideias encontrem sua origem no mundo dos sentidos e, de outro lado, afirmar que uma palavra seja algo mais do que uma palavra, que além das entidades sempre concretas que representamos existam ainda entidades gerais. Uma substância incorpórea representa, muito antes, a mesma contradição representada por um corpo incorpóreo. Corpo, ser, substância são uma e única ideia real. Não é possível separar o pensamento da matéria que pensa. Ela é o sujeito de todas as mudanças. A palavra infinito é carente de sentido, caso não significar a capacidade de nosso espírito para acrescentar sem fim. E, como só o material é perceptível e suscetível de ser sabido, não se sabe nada da existência de Deus." As qualidades divinas são as nossas qualidades reais, sensíveis, ou seja, as nossas potencias práticas que podem ser desenvolvidas por cada ser humano em qualquer lugar e a qualquer momento. Reconhecer apenas a existência dos interseres em unidade a que nomeamos realidade; reconhecer o automovimento causal determinado pelas condições em que se encontra cada ser é o primeiro passo para a compreensão do Tao, o fluxo energético sem fim nem começo do aqui agora simultâneo em todo cosmo. Uma destas formas de interser é o ser humano, cuja característica principal é antever os efeitos de suas ações. Que efeitos provocamos no mundo? O dharma, que é o método desenvolvido por Buda, fornece resposta a essa pergunta e, sabendo quais efeitos colocamos na realidade, podemos conter ou reduzir os efeitos prejudiciais aos demais seres e ajudá-los a alcançar a paz e a serenidade, sinônimos de felicidade. Os exercícios práticos para gerar boas causalidades, bons efeitos ou bons karmas, ou seja, para que sua prática seja amorosa e bondosa é o que o atual Dalai Lama chama de espiritualidade. Neste sentido, a espiritualidade não está em contradição com a filosofia materialista de que tudo o que existe são formas materiais em permanente movimento. Não acreditar em Deus ou no além supra-sensível, não crer numa força superior, não significa niilismo, não significa o abandono de valores que norteiam nossas relações. Espiritualidade não implica uma substância eterna; não é sinônimo de espírito ou espiritualismo ou espiritismo; não significa a crença no não-material (ainda que muitos marxistas insistam nessa querela); espiritualidade é apenas uma forma de prática. Deveríamos encontrar outro nome para substituir a expressão "espiritualidade"? Talvez. Mas a questão não é de nome, e sim de forma: a forma que é você. O ser humano é o ser da práxis, que é sinônimo de prática, de karma, por isso, meditarmos sobre o que colocamos no mundo ajuda bastante no autoconhecimento e ajuda a compreender o significado do não-agir. Agir só se for para a emancipação dos seres, para a felicidade de todos. Você é o sujeito da mudança, porque não podemos separar seu espírito de seu corpo, sua matéria daquilo que você sente e pensa, por isso, a mudança e o autoconhecimento não são processos meramente intelectivos, mas de mudanças na prática, na forma de intersermos. Não basta interpretarmos e compreendermos a necessidade de mudar o mundo rumo à felicidade de todos e todas; não basta compreendermos corretamente o movimento da realidade sob o capitalismo, suas ilusões e sofrimentos. É preciso mudar o mundo e, portanto, mudar de imediato aquilo que está ao nosso alcance: nós mesmos. Você é aquilo que faz e se o que você faz gera mais ansiedade, medo, tristeza, raiva nos demais seres, seu karma/práxis não ajuda em nada para a iluminação humana global e reitera as relações sociais da economia de mercado. Se você compreender o não-eu; você como um interser, a busca de sua libertação do sofrimento é também ajudar aos outros a livrarem-se do sofrimento; como escrevera Marx no Manifesto Comunista: a liberdade de cada indivíduo é condição para a liberdade de todos. Enfim, o que você faz no mundo?Que causalidades são postas quando você age? Qual o seu karma?

sábado, 2 de maio de 2015

Nirvana, a cessação dos estímulos

No último texto aproximamo-nos do conceito de samsara, o eterno fluxo de gênese, desenvolvimento e perecimento de tudo o que existe ou existirá. Vimos também que somos parte deste fluxo e, limitados por nossos sentidos, desenvolvemos inúmeras ilusões sobre a realidade que, sobretudo, nos impede de compreender a origem dependente de todos os seres e nos apegamos ao "eu". Concluí o texto sobre samsara afirmando que nossa mente é como um lago: sob a chuva, distorce a imagem do céu. Cada gota de chuva é um estímulo da realidade: sons, sabores, formas, pensamentos, etc. Se a chuva cessar a distorção na imagem do céu também cessa. A meditação leva-nos ao "cessar" dos estímulos em nossos sentidos, gerando paz interior e modificando o modo como nos relacionamos com samsara, diz-se que vemos o nirvana. Por isso, samsara e nirvana são a mesma e única realidade, o que altera é o modo como nos relacionamos com ela.

A palavra nirvana vem do sânscrito e é formada pelo prefixo "nir" que significa não e pela expressão "vana", que significa cordão. Aqui o significado é não estar amarrado ou preso ao samsara. Alguns autores também associa o termo "vana" ao substantivo "vayo", que significa ar ou movimento, assim, nirvana seria o fim do movimento, do fluxo a que estamos submetidos; o desatar do cordão que nos prende a samsara.

Para além de questões etimológicas, é interessante notar que não se trata de "alcançar" ou "chegar" a uma espécie de paraíso ou qualquer outro lugar. Um indivíduo qualquer que se torna um buda vê nirvana, mas não vai a um lugar chamado nirvana. Durante a meditação, ao ver nirvana o indivíduo permanece ali, sentado onde está. O zazen, por exemplo, que é a prática dos zen budistas significa meditar ("zen") sentado ("za") e é realizado com o rosto voltado para uma parede afim de reduzir o máximo possível os estímulos que nos fazem mover e movem nossa mente. A meditação, uma das três características fundamentais da prática budista, decanta a mente e, aos poucos, desata-nos dos estímulos externos (sons, cores, etc) e internos (pensamentos, ansiedade, etc) dando-nos paz interior, felicidade e sabedoria.

Por que dizem os sábios budistas que essa experiência é intraduzível em palavras? Como explica Jetsunma Tenzin Palmo "Há um nível de mente, de ser cônscio, que não é dual, que não é conceitual, que é por sua própria definição além do pensamento. Não pode ser pensado e não pode ser conceitualizado, mas pode ser realizado." Ser cônscio e não ser conceitual pode soar contraditório para o marxismo dominante na tradição marxista, pois acostumado a pensar nos moldes da modernidade na qual tudo se reduz à gnosiologia, por isso ocorre o que já escrevi em outro texto, muitos marxistas amigos meus torcem o nariz para a prática espiritual (não confundir com religião ou crença em seres superiores e divinos) sem nem ao menos tentarem verificar, por via da prática, as possibilidades de autoconhecimento e autorrealização pela auto-atividade. Para o "marxismo" reduzido a um método científico chamado de "materialismo histórico-dialético" - expressão que Marx nunca utilizou, mas que se tornou moda após a segunda internacional -, predomina a visão de que há em nossa espécie uma não-identidade entre o sujeito e o objeto, entre o indivíduo e o mundo. Atendo-se a este aspecto, que também é verdadeiro, esquece-se, todavia, do outro lado da contradição que é a identidade.

O indivíduo, diz Marx, é o ser social, por isso, sua formação é histórica, sua origem é dependente das causas e condições sociais em que surge e se desenvolve até sua morte; suas experiências práticas forjam o seu ser. Num determinado momento da evolução individual, explica o psicólogo marxista Vigotski, há um salto qualitativo no desenvolvimento humano que o distingue dos chimpanzés: surge um pensamento verbal e uma fala intelectualizada, mais ou menos aos dois anos de idade. O ser humano é formado na sua relação com os outros e, inevitavelmente, pelas palavras com as quais foi estimulado desde o nascimento e que passa a utilizar. As palavras são estímulos externos que se tornam internos.

Antes de desenvolver o pensamento verbal e a fala intelectual o ser humano é já um ser, e à medida em que vai se apropriado, interiorizando a cultura na qual nasceu e tem de viver acaba por se identificar totalmente com esse repertório cultural como se lhe fosse genético. Desde crianças somos levados a crer que  nossos pensamentos são nossos e o que penso sou eu. Mesmo marxistas que defendem única e exclusivamente a não-identidade entre o sujeito e o objeto acabam por se identificar com esse pensamento que deveria ser também seu objeto de análise. Temos a ilusão de nos identificarmos com o que pensamos, falamos ou agimos.

Não pensem com isso que acredito numa "essência" dentro de cada um de nós e que precisa ser reencontrada... não! Cada ser é uno com o que é. Um homem violento é violento não porque perdeu sua essência natural boa, mas porque ele foi forjado assim pelas causas e condições em que evoluiu como indivíduo e assim age porque não controla a si mesmo na medida em que se identifica com o que é.

O pensamento, tal como toda forma de ser, é movimento, atividade. Os fluxos energéticos neurológicos nos condicionam: uma vez estabelecido uma conexão fica mais fácil pensar e agir desta maneira devido ao fato de que o fluxo já foi realizado uma vez e, assim, cria-se uma espécie de "sulco" em nossa mente pelo qual flui nossa reação. Criam-se hábitos mentais e corporais. Ou seja, você é o que é efetivamente, mas tem a ilusão de que escolheu ser tal como é ou se resignou diante da impossibilidade de mudar sua personalidade para melhor. Como se diz: "Eu sou assim mesmo, é meu jeito"

A meditação, quando decanta a mente, afasta justamente essas reações típicas da personalidade e curam esses "sulcos" pelo qual nossa mente está condicionada a fluir. Serenando os estímulos não apenas externos, mas também internos, reduz-se as abstrações que temos (palavras, conceitos) e isso não é absurdo, é apenas descondicionar-se daquilo que somos uma vez que as abstrações são construções sociais que interiorizamos. Como expressar em palavras esse estágio maravilhoso que é o nirvana (paz interior e sabedoria irreversíveis) em que as abstrações e os pensamentos cessam junto com os sentidos (nirvana = sem movimento)?

Ver o nirvana é ver-se como mais uma parte de samsara, por isso, se você se identifica com seus pensamentos, suas falas e suas ações; se você se identifica com sua roupa, seu carro ou sua casa; mas não se identifica com um rato ou uma batata-doce ou um outro ser humano qualquer você ainda não será capaz de ver-se como natureza.

Pensemos mais sobre isso: se não sou natureza o que sou?

Uma das críticas de Marx aos filósofos é justamente essa divisão entre o homem e a natureza. Não há contradição entre sociedade e natureza. Mas enquanto estivermos presos a samsara evitaremos a possibilidade de experimentarmos a consciência sem as abstrações. Como todo significado de qualquer palavra é uma abstração (Vigotski) não podemos exigir que nos expliquem com palavras a experiência do nirvana. Ver o nirvana é uma experiência individual que não pode ser explicada, mas pode ser vivida por qualquer ser humano, basta ter paciência e praticar o budismo.

Talvez eu e você não consigamos vê-lo, mas na medida em que nos aproximarmos deste estado mental desvelaremos samsara e compreenderemos cada vez mais a nossa unidade com todos os seres e nossa identidade com aquilo que não nos é idêntico. Compreenderemos a vacuidade. Se serenarmos nossa mente como um lago que reflete o céu sem perturbação em sua superfície o fluxo eterno de samsara não causará sofrimento ou ilusão e daremos um salto em nosso modo de ser, pois somos este fluxo, somos uno com a totalidade e isso gerará mais empatia, alteridade, amor, compaixão. Por isso, ver nirvana é a "iluminação" que desenvolve nosso humanismo em outros níveis e aspectos. Marx, quando fundou sua original visão de mundo, concluiu que  humanismo = naturalismo. Somos uno com nosso planeta e todos os seres, e ver o nirvana deve ser de tamanha beleza e paz interior que vale a pena tentar.

domingo, 26 de abril de 2015

Mudança na forma de pensar exige mudança na forma de agir










Só a luta muda a vida e é preciso lutar também contra nós mesmos. Como escreveu o filósofo Lukács: "(...) é sempre possível, e na realidade acontece frequentemente, que uma pessoa lute com paixão contra uma alienação que a oprime fortemente e, ao mesmo tempo ignore inteiramente outros campos, outras alienações. (...) como um pai e um filho que são sinceros e convictos ativistas na luta pela libertação dos operários (isto é, lutando contra essa forma de alienação), nas relações com a mãe e a filha mostram-se ao invés opressores e aproveitadores (...)" Não se esqueça: uma mudança na forma de pensar exige mudança na forma de agir. Pratique a mente alerta (atenção plena) e a meditação, você perceberá os benefícios em sua personalidade melhorando sua relação consigo e com os outros. Não é milagre, é prática. Experimente!

Samsara, o eterno fluxo


Pense nas pessoas que você ama. Essas pessoas, um dia, morrerão. Olhe para você. Um dia você não existirá mais. Veja as coisas ao seu redor. Tudo, mais cedo ou mais tarde, desaparecerá, pois tudo perece. Os objetos que você tanto dá valor, após sua morte, não estarão mais sob seu poder. Sabe-se lá o que lhes acontecerá, passarão de mãos em mãos, serão doados, perdidos, deixados para Cronos. Aos poucos, enfim, tudo o que agora existe vai desaparecendo, inevitavelmente. Assim como os antepassados de sua família, você também não será lembrado. É a lei natural a qual tudo se submete: "Na natureza nada se crea, nada se perde, tudo se transforma". O universo, tal como o conhecemos, é samsara, um permanente processo de nascimento e morte. A expressão samsara vem do sânscrito e significa "fluxo contínuo", o permanente processo de mutação de tudo o que existe, seja orgânico ou inorgânico surge, desenvolve e perece.

O mundo tal como o percebemos é samsara. O que você sente com os olhos, os ouvidos, a boca, com a pele, o nariz ou com sua mente (medo, amor, tristeza ou felicidade, etc) nada é permanente. Isso parece óbvio, mas, como explicou Dalai Lama, vivemos como se nunca fossemos morrer e morremos como se nunca tivéssemos vivido. Isso ocorre porque vivemos em samsara e somos parte dela. Assim como tudo flui constantemente, nosso corpo e mente fluem também. Pensamentos, sentimentos, desejos fluem em nós e não nos damos conta. Há diversas situações em que agimos, falamos ou pensamos coisas das quais nos arrependemos, pois tudo flui em nós, nós mesmos somos fluxo e nos deixamos levar por samsara. Nossos pensamentos, dizem os budistas, são como macacos pulando de galho em galho. Provavelmente você já deve ter reparado uma vez ou outra que, quando você menos espera, está cantarolando uma canção em sua mente e se pergunta: da onde tirei essa música? Ou: Essa música não sai da cabeça! Isso é um exemplo de como não temos controle sobre o fluxo e nem sobre nós mesmos.

Por todas essas razões, os budistas afirmam que samsara é o reino das ilusões e estas levam ao sofrimento. O fluxo foge ao nosso controle: não podemos evitar a nossa morte e nem a das pessoas que amamos. Não podemos evitar o envelhecimento e as doenças; não se pode evitar que um dia esteja quente e outro frio; noite e dia. O objeto de que você gosta, mais cedo ou mais tarde, irá se perder ou quebrar. Inevitavelmente a vida é carregada de dor e sofrimento. Samsara não é, portanto, um lugar, mas também não é apenas um ponto de vista sobre a realidade, não é apenas um estado mental. É tudo o que existe: sua mente, seu corpo e o mundo externo a você. Antigamente as pessoas acreditavam que o sol girava em torno da terra, mesmo mentes brilhantes como a de Aristóteles, pois estavam presos à samsara: nossos sentidos mostram o sol "nascendo" no leste e se pondo no oeste e, ao contornar a abobada celeste, dá-nos a impressão de que gira sobre nós. Hoje sabemos que isso não é verdade, mas naqueles tempos a humanidade estava presa a um determinado estágio do samsara. Hoje os telescópios e satélites ampliam nossos sentidos e nos possibilitam novas relações com o universo, assim, novas formas de verificação empírica de determinadas hipóteses e teorias: sabemos que a Terra e a espécie humana não são o centro do universo, mas novas ilusões surgem a cada passo que desvendamos samsara, como a cosmologia do Big Bang e outras formas de nos enganarmos sobre a origem e o sentido da vida e das coisas.

Samsara, o fluxo permanente de surgimento e desaparecimento de cada ser, gera ilusões também devido ao fato de que a realidade parece ser tal como nos aparece. Temos a ilusão de que as coisas sempre foram tal como são e permanecerão. Einstein explica que quando pegamos uma pedra, sentimos apenas a maior concentração de energia a qual chamamos pedra, mas ao redor da pedra existe um campo energético que é também o seu ser. Ao olharmos nossas mãos vemos apenas o limite da pele, todavia, isso é ilusão de samsara, do fluxo energético limitado de nossa visão, de um falso eu, pois não revela o campo que também é parte de nós. Quando uma barra de metal é eletro-magnetizada sua massa aumenta; quando rodamos um pião, sua massa diminui. mas essas variações na massa são imperceptíveis aos nossos sentidos. Em nosso corpo células morrem e nascem a todo instante e, em dois anos, toda a matéria que forma nosso corpo é trocada... daqui a dois anos a matéria que forma você será outra, seu corpo não será formado pelo que é hoje. Tudo flui.

Se permanecermos presos a samsara seremos iludidos cada vez mais. O fluxo é estímulo para nossa mente e adentramos na roda de samsara de modo natural, pois a natureza é mutação, mas o problema é que, como seres sencientes, buscamos a felicidade motivados pelas ilusões provocadas por samsara. Somos levados pelo fluxo que geram nossos desejos de maneira espontânea, irrefletida e imediatista. Acreditamos que um cabelo X e uma roupa Y talvez nos faça melhor, mais felizes; talvez um carro do ano ou um livro que acabaram de lançar. Bebemos refrigerantes para matar a sede e nos refrescarmos pois estamos presos aos sentidos do desejo imediato, mas é apenas ilusão, a destruição provocada em seu corpo e mente pelo refrigerante geram sofrimentos mais duradouros do que o prazer momentâneo.

Brigamos com nossas crianças porque elas quebram algo ou riscam nosso carro sem querer e, ao levantarmos a voz para elas, as oprimimos e não a educamos, causamos sofrimento nela e em nós, pois a sensação negativa da raiva se faz sentir em nosso corpo e o fato é que nem o risco no carro se desfez e nem nossa relação com os outros melhoraram.

Buscamos a felicidade iludindo-nos de que tudo é permanente e, quando isso se desfaz, sofremos ainda mais. Quando estamos amando, pensamos que é eterno, mas sendo tudo samsara, nada é eterno. Vivemos como se nossos amigos e família nunca fossem morrer. Minha filha de 2 anos pode morrer mesmo antes de mim e quando isso ocorre iludimo-nos ainda mais pensando que "fomos pegos de surpresa" enquanto, na realidade, estamos sujeitos a isso. Por isso, o desejo, o apego e a ignorância são intensamente pesquisados no budismo afim de nos libertarmos.

A meditação e a mente alerta nos ajuda a vencer a ilusão da permanência gerada por nossos sentidos e, compreendendo samsara aprendemos a aceitá-la. Se a prática budista for realizada adequadamente, seguindo os três treinamentos e as três jóias, gerará paz interior e amor para com os seres, pois o budismo não o é apenas uma ciência da mente que traz autoconhecimento, mas também um caminho espiritual. O budismo, ao mudar nossa forma de agir em samsara, livra nossa mente dos estímulos de samsara. Os estímulos são como pingos de chuva e nossa mente um lago. Se a chuva cai sobre o lago a imagem do céu sofre as irregularidades das ondas que se formam na superfície do lago. À medida em que a chuva vai passando o lago vai serenando, assim nossa mente não fica prisioneira dos estímulos e das aparências que criam ilusões. Refletindo o céu tal como um espelho, nossa mente serena é capaz de ver o nirvana, um estado mental sem significações ou abstrações, sem dualidade sujeito-objeto, sem a diferença entre o eu e o mundo. Um estado de felicidade plena e paz interior que não abandona samsara mas a percebe de outra forma, por isso, o monje Gênsho afirma que samsara é nirvana e nirvana é samsara, o que muda é nossa relação com o fluir da existência, por isso, diz-se no budismo que escapamos de samsara para vermos o nirvana, duas faces de uma mesma moeda: a realidade tal como é.

Saiba mais sobre samsara:


Samsara não é um lugar


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Além disso, pesquise sobre ecologia e as leis de conservação da massa-energia e da termodinâmica.

Nem budismo, nem marxismo.

Na primeira postagem fiz um convite para construirmos juntos o budismo marxismo, todavia, para que isso se realize é necessário abrirmos mãos tanto de um quanto de outro. Contraditório? Sim e não. A realidade é contraditória e ninguém escapa a essa constatação. A contradição é o modo de existir de todos os seres. Se pensarmos nos movimentos universais de atração e repulsão da massa-energia, perceberemos que nós mesmos somos assim, nos atraímos por A e repelimos B. Sencientes, ora estamos felizes ora tristes. Estamos alertas ou em repouso e assim por diante. Mesmo felizes, algo pode ser considerado triste por nós: quando estamos juntos dos amigos em confraternização, uma má notícia pela televisão pode nos fazer tristes em meio a alegria, mesmo que por apenas alguns segundo.

Mais que um pensamento binário, a contradição implica o reconhecimento de diversos fluxos para compor um único ente, o que significa dizer que tudo o que existe (pessoas, coisas, plantas, animais, sentimentos, pensamentos, ar, luz, elétrons) é o resultado de muitos outros processos. Marx dizia que o concreto é concreto por ser a síntese de múltiplas determinações. Essa conexão ineliminável do todo e das partes é conhecida no budismo como a teoria da "gênese condicionada" ou "origem dependente". Portanto, quando falamos em contradição não devemos pensar apenas de modo binário, positivo-negativo, escuro-claro. Devemos pensar, sobretudo, no fato de que algo é e não é ao mesmo tempo e, a partir daí, descobrir que um ente específico só existe na medida em que está em unidade com aquilo que ele não é. Você, por exemplo, não é o ar que respira, mas como pensar em você tal como é se não levarmos em conta o ar que você respira como fonte de energia para seu corpo?

O filósofo alemão Hegel falava da identidade entre o idêntico e o não-idêntico. Você não é idêntico ao oxigênio, mas sem ele não é possível a você ter identidade humana: você é o que é pelas condições e causas do mundo em que você vive, tal como o oxigênio presente na atmosfera terrestre é uma destas condições vitais. Por isso, quando afirmamos que um ser humano se distingue de outro animal por ter linguagem, não pode ser de todo verdadeiro, afinal, é apenas uma das características dentre as várias que se condicionam mutuamente no ser humano concreto. Quando perguntam o que você faz e você diz sua profissão, não é nem a metade da verdade. Você não é o alimento, também não tem como única atividade a sua profissão, mas é também ele. Então você é e não é você. Essa é apenas uma primeira maneira de pensar a não realidade do eu.

O ser e o não-ser constituem tudo o que existe. A unidade com o alimento, por exemplo, não ocorre apenas quando comemos, mas também quando não comemos. Se o alimento está no armário, ficamos com a mente livre para outras atividades, ou seja, sua mente e seu corpo estão em unidade com este fato; se acabou o alimento da dispensa, você precisa providenciar mais, e seu corpo e mente estarão voltados para essa atividade e, mesmo se você estiver no trabalho ou em outro lugar, lembrará de passar no supermercado ou na venda mais tarde. Tudo está em relação e traz em si o outro.

Antigo símbolo chinês, o Tai Chi representa justamente essa ideia. Tai Chi significa "viga mestra" e representa a sustentação do ser por meio das forças contraditórias do yin e do yang. A ideia de contradição, entendida não binariamente, é oriunda do fato de que tudo possui uma origem dependente; a inter-relação entre todos os seres é a viga mestra do universo.





 Parece contraditório quando Buda ensina a seus discípulos a não acreditarem nele, mas, antes de tudo, verificarem na pratica seus ensinamentos? O mestre tibetano Namkhai Norbu Rinpoche afirmou que Buda não era budista. Buda, de modo coerente, não poderia ser budista uma vez que sua teoria se funda na noção de que estamos condicionados pelo "permanente fluxo" (samsara) da insubstancialidade de todos os seres. Por sua vez, a lógica que auxiliou Marx, conhecida como dialética, leva-nos à concluir pela mesma insubstancialidade de todos os seres, uma vez que tudo o que existe é um constante fluir e perecimento. Quando comunistas franceses, influenciados por sua explicação sobre o capitalismo, incluíram o sufixo "ismo" em seu nome, ele afirmou: "Eu não sou marxista". Se tudo é fluxo, como engessar conceitos em sistemas de pensamentos, arcabouços teóricos, filosofias e religiões?

Quando falo da prática budista para militantes comunistas e marxistas muitos torcem o nariz, possuem uma mente reativa. O marxismo tornou-se algo intocável, cuja pureza deve ser preservada contra a heterodoxia ou contra os desvios que o rebaixam. De fato deturpações ocorrem em algumas situações, mas, como o próprio Marx afirmou: toda ciência deve ter como fundamento a realidade empírica, que se processa diante de nossos olhos. Negar de imediato novas possibilidades afim de conservar a "coerência" do marxismo é criar um novo conjunto de dogmas, uma abstração na qual se agarrar apesar da realidade.

O budismo, tal como aqui o entendemos, como ciência da mente e caminho espiritual, pode contribuir com seus ensinamentos para todos e todas que queira entender a realidade tal como ela é, sem contradizer o fato, iluminado por Marx, de que a realidade capitalista é um permanente fluxo de pessoas e objetos na forma de mercadorias. Para Marx, o capitalismo é apenas uma das fase no processo de nascimento e morte de organismos sociais, processo ininterrupto enquanto existir seres humanos. Sim, o capitalismo é transitório, pois tudo o que existe acaba, queiramos ou não.

O capitalismo compõe grande parte da atual fase evolutiva de samsara e nosso apego ao samsara gera sofrimentos próprios e alheios. Apego ao samsara gera pensamentos conservadores, pois não conseguem ver além do fluxo ao qual estão condicionados. Como tudo acaba, quem está apegado ao que perece sofre. Os sinais de desmoronamento do capitalismo geram sofrimentos a essas pessoas, mesmo que o fim do capitalismo lhes tragam melhores condições de vida isso não é imediatamente sensível e o que enxergam é o mundo em crise e a crise do eu, do ego cujas causas e condições estão ruindo (falta de emprego, aumento do custo de vida, queda no padrão de consumo, etc).

Por isso, abandonar o marxismo e o budismo, não significa criar algo novo e nem julgar que são duas tradições superadas, não é nossa pretensão; significa apenas desapegar do puritanismo teorético para que possamos ver com mais clareza as possibilidades de desenvolver nossas potencias humanas. Nem Marx, nem Buda se apresentavam como filhos de Deus, por isso, seus escritos e ensinamentos existem para serem cotejados com a realidade afim de aprendermos cada vez mais sobre nossa mundaneidade, a nossa condição humana. Precisamos abrir mão deles como dogmas e vê-los com olhos curiosos. É com esse objetivo que precisamos abrir mão do marxismo e do budismo enquanto sistemas de pensamentos e tradições culturais fixas e dogmatizadas. Dalai Lama afirmou que se a ciência moderna comprovasse que algumas ideias budistas não passassem de ilusões, elas deveriam ser abandonadas mesmo se forem tradicionais para os budistas. É com esta humildade que devemos buscar Marx e Buda, pois ambos trazem peças fundamentais para o quebra-cabeça da existência e são passíveis de verificação empírica. Eu mesmo não creio em reencarnação, mas isso não me impede de praticar os ensinamentos budistas como exercícios para nossas mentes. Do mesmo modo um budista em relação ao marxismo não pode imaginar que a luta de classes seja uma invenção de Karl Marx: a luta de classes existe como causa de inúmeros sofrimentos; é o yin e yang social de nosso tempo. Enfim, tudo depende de nossa abertura ao novo e da nossa vontade de experienciá-lo.